Amigos da Arte e Cultura

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O JOGO LÚDICO DA DIMENSÃO ÓTICA, EM UMA ILUSÃO DE TRIDIMENSIONALIDADE.

Tela: 130 cm x 90 cm


| Por: Raquel Crusoé Loures de Macedo Meira

Sempre me dediquei a música mas, pelos idos dos anos 80, me entusiasmei pelas artes plásticas quando então fui aluna do grande pintor brasileiro Raymundo Colares que, nascido aqui nos sertões das Minas Gerais, reviveu a assimetria de Mondrian e a sua obra foi reconhecida não somente em nosso país, mas também em todo o mundo. Ainda bem jovem, me encantava estar por perto e conviver com esta figura humana inesquecível, realmente uma virtualidade pura. Foi nesta época que caí de amores pelo geométrico.

Passei a pesquisar sobre o assunto e constatei que, lado a lado com o rigor matemático e a simplificação da forma, as abstrações geométricas orientaram parte relevante da arte abstrata do século XX e que, dia a dia, crescem em vitalidade e popularidade no século XXI.



Tela: 150 cm x 90 cm


O fato é que tenho me identificado com esta linguagem visual e, no ateliê da nossa grande artista Conceição Melo em Montes Claros, começamos o jogo explorando e pesquisando formas, imagens x fundo, cores, movimento, rítmo, harmonia, equilíbrio,camadas, contrastes e simplicidade.

Após os períodos de experimentação, apreensão e incubação, finalmente chegou o famoso “estalo”.

Apresento a vocês dois resultados. A dimensão e o jogo lúdico da dimensão ótica das formas geométricas, saltam da tela em cores e múltiplos formatos em uma ilusão de tridimensionalidade.

Em um dos exercícios, a busca da perfeição representada pelo triângulo que se enlaça, nos transporta a toda tradicionalidade do Yin-Yang da filosofia chinesa, em uma procura de modernidade.


Fotos: Terry Carlin

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

HINO DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA DO BRASIL – UMA OBRA DE ARTE


A monarquia chegava ao fim após 67 anos. No dia 15 de novembro de 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca com o apoio dos republicanos, demitiu o Conselho de Ministros e seu presidente. Na noite deste mesmo dia, o marechal assinou o manifesto proclamando a República no Brasil e instalando um governo provisório.

Com este novo governo, foi instituído um concurso para a adoção de novo hino nacional. O vencedor do concurso realizado no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, no dia 20 de janeiro de 1890, foi o hino de Leopoldo Miguez com letra de Medeiros e Albuquerque. Entretanto, a música do Miguez não chegou a ser oficializada como o hino nacional brasileiro,mas sim, decretado e adotado sob o título de Hino da Proclamação da República (Decreto nº 171, de 20 de janeiro de 1890).

Medeiros e Albuquerque

Medeiros e Albuquerque (José Joaquim de Campos da Costa de M. de A.), jornalista, professor, político, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo, ensaísta e memorialista, nasceu em Recife, PE, em 4 de setembro de 1867, e faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de junho de 1934.

Em 1896 e 1897, compareceu às sessões preliminares de instalação da Academia Brasileira de Letras. É o fundador da Cadeira n. 22, que tem como patrono José Bonifácio, o Moço.

Entre 1880 e 1884, cursou a Escola Acadêmica, em Lisboa. De volta ao Rio, fez um curso de História Natural com Emílio Goeldi e, no final da adolescência, teve como preceptor Sílvio Romero.

Foi professor da Escola de Belas Artes,vogal e presidente do Conservatório Dramático e professor das escolas de 2o grau.Ao mesmo tempo, ele realizou experiências com as ciências ocultas,como o hipnotismo e a psicanálise, disputando a primazia na apresentação das idéias de Sigmund Freud no Brasil.

Em 1888 estava no jornal Novidades, ao lado de Alcindo Guanabara. Embora tivesse entusiasmo pela idéia abolicionista, não tomou parte na propaganda.

Fazia parte do grupo republicano. Nas vésperas da proclamação da República, foi a São Paulo em missão junto a Glicério e Campos Sales. Com a vitória da República, foi nomeado pelo ministro Aristides Lobo, secretário do Ministério do Interior e, em 1892,por Benjamin Constant, vice-diretor do Ginásio Nacional.

Leopoldo Miguez

Leopoldo Miguez (1850 – 1902) nasceu no Rio de Janeiro.De descendência espanhola, muito cedo demonstrou sensibilidade musical. Foi levado para a Espanha quando tinha dois anos e ainda criança,foi viver em Lisboa para estudar violino com Nicolau Ribas e, mais tarde em Bruxelas, ingressou no Conservatório, fazendo também aí, humanidades,letras e estudando harmonia com César Franck.

Em 1878 no Rio de Janeiro, associou-se a Artur Napoleão, dirigindo uma casa de pianos e música, da qual se retirou quatro anos depois, para se dedicar exclusivamente a composição musical.

Recebeu do governo a incumbência de ir à Europa para estudar a organização dos Institutos e Conservatórios Musicais e ao regressar, foi nomeado diretor do Instituto Nacional de Música, onde foi professor de composição e violino.

Como muitos compositores desta época, Leopoldo Miguez não pôde fugir a influência de Liszt e Wagner. Sua obra no entanto, nos dá a impressão de encanto por sua sensibilidade, inspiração, espontaneidade e elevação de estilo.

Suas obras principais são: Os Saldunes, ópera; Pelo Amor, poema dramático; Prometeu, Ave Libertas e Puríssima, poemas sinfônicos, e o premiado Hino da Proclamação da República, além de diversos Scherzos, Odes, Madrigais e outras peças para canto com acompanhamento de piano e orquestra.

OSESP : HINO DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA



Musica: Leopoldo Miguez (1850/1902)
Letra: Medeiros e Albuquerque (1867/1934)

Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Regente: John Neschling






Seja um pálio de luz desdobrado,
Sob a larga amplidão destes céus.
Este canto rebel, que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus!
Seja um hino de glória que fale
De esperanças de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós,
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.


Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País...
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha, ovante, da Pátria no altar !

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós,
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.


Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou neste audaz pavilhão!
Mensageiro de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder,
Mas da guerra, nos transes supremos
Heis de ver-nos lutar e vencer!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós,
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.


Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos louçãos!
Seja o nosso País triunfante,
Livre terra de livres irmãos!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!


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Vocabulário

Audaz: corajoso
Augusto: majestoso
Aurora: nascer do sol
Brado: grito
Estandarte: bandeira
Hostis: inimigos
Labéus: desonras
Lampejo: clarão
Louçãos: vistosos
Louros: glórias
Mister: necessário
Outrora: em outro tempo
Ovante: vitoriante
Pálio: manto
Pendão: bandeira
Porvir: tempo futuro
Púrpuras: vermelhos-escuros
Rebel: revoltoso
Régias: reais
Remir: redimir
Rubro: vermelho
Soberbo: orgulhoso
Tiranos: governantes cruéis
Torpes: repugnantes
Transes supremos: momentos decisivos

terça-feira, 3 de novembro de 2009

VOCÊ É CRIATIVO?



| Por: Raquel Crusoé Loures de Macedo Meira

Todo ser humano possui criatividade em diferentes habilidades. Segundo Anderson (1965), a "criatividade representa a emergência de algo único e original", pois quando uma pessoa exprime uma idéia ou faz alguma coisa que é nova para ela ou para o seu meio, está criando.

A mais alta forma de criatividade é a que quebra os moldes estabelecidos, estendendo as possibilidades de pensamento e percepção. A pessoa criativa é inteligente, segura, confiante, líder, ativa e sempre manifesta interesse e alto nível de atenção, observação e muita concentração.

Acredita-se que o desenvolvimento do potencial criativo humano tenha início na infância. Quando as crianças têm suas iniciativas criativas elogiadas e incentivadas pelos pais, tendem a ser adultos ousados, propensos a agir de forma inovadora, pois, sabendo que as suas ações serão valorizadas, tendem a criar mais. O medo do novo, o apego aos paradigmas são formas de consolidar o status quo. Quando sentem que não estão sob ameaça como por exemplo a de perder o emprego ou de cair no ridículo, as pessoas perdem o medo de inovar e revelam suas habilidades criativas.



O mundo da arte e da cultura é fundamentalmente um mundo da criatividade, porque o artista não está diretamente ligado às convenções, dogmas e instituições da sociedade. O artista tem uma expressão criativa que é o resultado direto de sua liberdade.


FASES DE CRIAÇÃO:


1 – Apreensão: é o nascimento da criação
2 – Preparação: fase da exploração, da pesquisa, da proposição de possíveis soluções e novos caminhos.
3 – Incubação: fase da reflexão, da conexão de idéias.
4 – Iluminação: fase do famoso “estalo” ou “eureka”. É a apoteose da criação, a descoberta final.
5 – Verificação: é a fase em que o ser criador identifica-se com a sua obra e a imagina a serviço dos outros, testando-a.

O processo de conversão da idéia mental em idéia prática, é considerada a parte mais difícil, e no dizer popular:"1% de inspiração e 99% de transpiração".


CARACTERÍSTICAS DA PESSOA CRIATIVA:

1 – Inteligência: é importante que o grau de inteligência e a perspicácia do ser criador sejam altas.
2 – Consciência: para ver, sentir, estar atenta ao meio ambiente e sempre informado de tudo que o cerca.
3 – Flexibilidade: a pessoa criativa é moldável, adaptável.
4 – Originalidade: o ser criativo é capaz de produzir idéias novas, resolver problemas de forma incomum.
5 – Elaboração: a pessoa criativa não tem somente idéias, coloca-as em prática elaborando-as.
6 – Ceticismo: não se prende a crenças tradicionais.
7 – Persistência: não desiste diante de obstáculos.
8 – Auto-confiança: acredita no que já fez e no que ainda está por fazer.

De uma forma geral, a criança até os cinco anos é muito criativa, no entanto, por outro lado, há pessoas que desenvolvem e aprimoram o seu senso criativo com o passar dos anos, portanto o comportamento criativo será relativo às possibilidades e limites traçados pelo desenvolvimento, diferenças individuais e níveis de criatividade estimulados na escola e no meio familiar.


Será inata a capacidade de criar?

Se você acredita nisso. Prepare-se para mudar de paradigma !

domingo, 1 de novembro de 2009

RÉQUIEM PARA AMIGA


|Por: Maria Luiza Silveira Teles


A primavera se anunciava com o céu claro, o sol ardente e as flores se abrindo. Numa manhã assim, sem aviso prévio, uma alma de luz voltou para a Casa do Pai.

A luz do dia era pequena comparada a sua própria luz. Por onde passava, espalhava-a, derramando paz.

Desde criança, lutou bravamente contra uma doença auto-imune que ameaçou sua vida tantas vezes. Mas, ela não era de se deixar abater facilmente. Seu bom-humor, sua força não davam tréguas à doença.

Ela era aquela mulher forte de que fala a Bíblia. Entregue, dia e noite, ao trabalho, suas mãos de abençoada habilidade criavam verdadeiras obras de arte.

Era calada. Ouvia mais do que falava. Confidente e amiga de tantos jovens que seu velório vestiu-se da beleza da juventude, qual bando de passarinhos chilreando num canto melancólico. Este foi o maior enfeite de sua despedida, pois ela, na sua simplicidade, já havia pedido um velório sem coroas e adereços.

Ela parecia se apoiar nas palavras de Santa Teresa d’Ávila: “Nada te perturbe, nada te assuste. Tudo passa. Deus é imutável. A paciência tudo alcança. A quem possui Deus, nada falta. Deus é plenitude”.

Só nós, que privávamos de sua intimidade, conhecemos suas bravas batalhas: as cirurgias, a hemodiálise, os transplantes, o caminho espinhoso sem o apoio do companheiro, a criação do filho, que ela tanto amou e desejou...

Irmanadas na luta pela mesma doença auto-imune, costumávamos dizer: “Somos duras na queda. Tiramos tudo de letra”. Mas, ela sofreu muito mais do que eu, pois, por uma benção, que nem sei se mereço, a doença, até agora, não me atacou os rins.

E, depois de problemas tão graves, dois transplantes, quando se livrara finalmente da hemodiálise, numa cirurgia simples de hérnia, quando nenhum de seus amigos se preocupou porque sabíamos que isso para ela não era nada, sua alma resolveu voar rumo ao infinito, deixando-nos órfãos.

Pegou-nos a todos de surpresa. Amante da vida como era, sei que não gostaria de nos ver tristes. Mas é que a ausência de um ser amado dói muito. Por mais que tenhamos uma visão esperançosa da morte, por mais que pensemos que estamos preparados. A ausência é sempre dolorosa.

Não ver mais aquela fisionomia de paz, não assistir suas mãos habilidosas criar novas belezas, não ouvir sua voz paciente... tudo isso é por demais doloroso!

Gostaria de ter convivido mais com ela, aprendido, de verdade, a lição suprema da humildade, da paciência, da solidariedade, da resignação.

Nunca ouvi de sua boca uma única reclamação. Sempre que a gente perguntasse, a resposta era sempre a mesma: “Tudo ótimo”. Mesmo quando seu irmão caçula se foi, de morte súbita e prematura, ela não se queixou. Sua dor foi calada.

Mãe de tantos... Um pouco mãe de minha própria filha, a chamada Dinda de minha neta, por ser madrinha de seu melhor amiguinho... Ah, Nádia, o mundo pode não ter tomado conhecimento de sua bela jornada. Mas, para mim e para todos que a conheceram, você era um mundo de ternura. Para todos nós sua partida foi triste e haveremos de sentir muito a sua falta.

Pessoas vazias, cheias do próprio ego, vaidade e orgulho, tantas vezes recebem homenagens grandiosas. Mas, pessoas grandes como você passam despercebidas para aqueles que estão envolvidos apenas com seus objetivos menores de suas vidas sem grandeza alguma.

Depois de tê-la conhecido e convivido com você por mais de trinta anos, mais cresce a minha convicção de que pessoas “cheias de Deus”, as pessoas santas são sempre silenciosas e humildes.

Esteja em paz, minha amiga e me perdoe se não me doei mais a você!

Aqui continuamos nós na espera do reencontro. E como tão bem disse São João da Cruz: ”O amor não cansa e nem se cansa”. E você era só amor.

+ Minha amiga se foi em 19 de Setembro de 2009.
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